COM[POSIÇÃO] DO AR

Braga é cidade candidata a Capital Europeia da Cultura em 2027. 

Ao desenhar o dossier de candidatura convocámos todas as forças vivas da cidade.

 

Colocámos toda a comunidade bracarense no centro da ação cultural, do pensamento e do planeamento de políticas e desenhámos o território e as suas respostas em diálogo com as características e interesses, raízes e posições desta comunidade. 

 

Para isso, criamos um programa de auscultação especialmente dirigido a indivíduos em risco de exclusão social  (etnias, imigrantes, famílias e jovens em bairros sociais), no sentido de as habilitar para o exercício de uma cidadania ativa, designadamente dando-lhes voz e um papel ativo no processo de debate e procura de soluções para cidade e a, referida, candidatura de Braga a Capital Europeia da Cultura.

Numa folha branca marca o teu lugar. Envia-nos o teu desenho.

Bruno

Guilherme

Cláudia

Lídia

Lucas

Rómulo

Qual é a composição do ar que respiramos?

O ar enquanto bem comum. Elemento que, tal como o sol, não pertencendo a ninguém, pertence a todos. O ar não conhece fronteiras, nem línguas, nem casas. Mas conhece-nos por dentro. Entra e sai dos nossos corpos a cada respiração. E nem imagina que é ele que nos mantém vivos. Neste processo criativo exploramos em conjunto a composição do ar e o facto de este ser um denominador comum e essencial a cada ser vivo da Terra. Para isso, levámos connosco alguns textos que nos orientaram o caminho.

“Não admira que durante milénios o ar, que ninguém vê, fosse imaginado como um ser sobrenatural que penetrava no corpo dos homens e lhes concedia a vida. Um deus, portanto. Assim, foi considerado o ar como um deus muito temido, umas vezes protetor, quando se deixava aspirar em haustos reconfortantes, outras vezes terrível, quando bramia, soprava, assobiava, fazia estremecer as robustas árvores e as arrancava do solo, tombando-as. Um deus que merecia toda a veneração e respeito.”

 

— Rómulo de Carvalho, a Composição do Ar, 1981

“O Vento existiu primeiro, como uma pessoa, e, quando a Terra começou a sua existência, o Vento tomou conta dela.

É o Vento que nos dá a capacidade de falar. Já observamos que os quatro Ventos das direções cardeais são também chamados “quatro Palavras”. Dado que apenas falamos por meio da respiração, o próprio Vento – a respiração coletiva – é considerado como detendo o poder da linguagem: Só por meio do Vento é que falamos. Ele existe na ponta das nossas línguas. Então o Ar – em particular na sua capacidade de proporcionar consciência, pensamento e fala – tem propriedades que a civilização alfabética europeia atribui à “mente” ou “psique” interior individual do homem. 

 

A identificação (...) da consciência com o ar (...) não é um poder imaterial que reside dentro de nós, mas antes o meio invisível, porém inteiramente palpável, em que estamos mergulhados. (...) a alma, ou a mente, mas também um sopro ou uma rajada de vento.”


in A Magia do Sensível, 

Composição do Ar

O projeto

Vamos falar.

Vamos escutar.

Vamos respirar. 

E assim fizemos do verbo um passo tão importante de acção. E escutamos. O objectivo era esse mesmo. Identificar. Mapear e escutar as comunidades de Braga. 

Às segundas feiras, ao longo de dois meses, abrimos a porta à voz e à escuta. Encontramos pessoas com muito a acrescentar à cidade. Também fomos ao encontro. Nas lojas, nas casas, nos ateliers, nos lugares de cada um. 

Escutamos. Conhecemos.

Depois deste período de auscultação o processo seguiu com a vontade de deixar cair, ou fazer cair, o "s" de "comunidades" através da criação de um objeto artístico que fosse um reflexo desse período de escuta. No fundo, que fosse  um reflexo da vida comum. 

Um projecto de aproximação, de reflexão e provocação feita por pessoas que respiram e constroem o mesmo ar.

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